domingo, 8 de fevereiro de 2009

descrição ou o inverso

desço as escadas em direcção ao primeiro café da manhã, já tarde. velhas amontoam-se, riem-se do tempo passado, preocupa-as o presente, têm muito medo do futuro. sem tempo, dou o último gole, pago e saio porta fora. a chuva entra pelo casaco. fujo dela em corrida até à estação do metro, onde pago a minha viagem, também, para a uma sala de cinema de lisboa. revisito antigas estações que me faziam imaginar histórias – laranjeiras, alto dos moinhos, parque…, quando levanto o olhar do livro que tento ler.
duas senhoras sentam-se ao meu lado (sempre gostei de ouvir histórias) com quase sessenta anos cada, mas só uma constrói frases sobre os seus próprios pés. uns pés que são diferentes dos outros, outros entende-se nossos, humanos. para os pés diferentes já comprou utensílios, cremes, mezinhas… atira-os para a frente, aponta e por breves momentos penso que irá descalçar-se. saem.
continuo a minha leitura até ao saldanha. já não chove. vou até à bilheteira adquirir em troca de uma quantia monetária um papel ranhoso que permitirá o meu acesso à sala 1. olho para o relógio. tenho ainda 20 minutos. tomo um chá, entro numa livraria que requer a minha promessa de não comprar nada e na casa de banho, em espera, duas mulheres conversam sobre a necessidade de introspecção que têm sentido nos últimos meses. compreendo-as...
entro na sala de cinema, para minha admiração, cheia. alguns idosos. vejo estreias e antestreias e delicio-me com o filme milk, de Gus Van Sant, em particular com a excelente interpretação de Sean Penn – magnífico.
regresso de metro, e refeita de convicções e de convictos. afinal, vale a pena ter esperança.

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