quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

partiu há 25 anos

Poeta castrado não!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?-
-Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Ary dos Santos

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

texto alterado

é fantástico verificar que alteram-se por aqui textos. um texto foi alterado no meu blogue. agora devidamente corrigido. e se fossem chatear outr@? aqui n se pretende escrever grandes textos sobre grandes teorias. mas este é o meu espaço. e sendo o meu, gosto de o preservar e cuidar. é lamentável que por aqui circule gente idiota!!!! vão para a **** que vos *****!

interesses

o que há nesta vida de real interesse a merecer o nosso interesse? desde a década de 70 faço esta pergunta de diferentes formas e em formas diferentes tenho encontrado motivos de concentração que revelam a importância atribuída. esses interesses, tal como os anos, vão-se acumulando em coisas díspares mas, por vezes, não muito distantes. a escrita, os livros, o cinema, a música… têm-me acompanhado, são por vezes a minha bóia de salvação e sempre que me distancio deles fico como que perdida. e são neles, juntamente com os momentos de convivência com os amigos e com a família, que me concentro pois, de tudo o resto retiramos pouca validade à nossa existência; somos meros números e sobre os quais somos obrigados a sobreviver. à medida que uns anos se acumulam interesso-me cada vez mais por mais do mesmo. tenho curiosidade pelo que aparece de novo, mas pouco é o que nos tocam em vários domínios como os velhos os fizeram e ainda fazem. poucos são os novos que conseguem bater os velhos. por que se calhar eles sabiam o que é que deveria na vida merecer o nosso interesse. e nem é preciso muito. basta o essencial.

desabafo

ando sem pachorra para comentadores e políticos. análises e previsões. sondagens e reacções. futebóis e economistas. presidente e segurança. armamento e armações. cessares-fogo e confusões. assaltos e mãos armadas. isto é tudo numa enorme bicharada. ufff

Venham mais cinco

Venham mais cinco, duma assentada que eu pago já

Do branco ou tinto, se o velho estica eu fico por cá
Se tem má pinta, dá-lhe um apito e põe-no a andar
De espada à cinta, já crê que é rei d'aquém e além-mar

Não me obriguem a vir para a rua
Gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa
E zarpar

Tiriririri buririririri, Tiriririri paraburibaie, 2X
Tiiiiiiiiiiiiii paraburibaie ...
Tiriririri buririririri, Tiriririri paraburibaie, 2X

A gente ajuda, havemos de ser mais
Eu bem sei
Mas há quem queira, deitar abaixo
O que eu levantei

A bucha é dura, mais dura é a razão
Que a sustem só nesta rusga
Não há lugar prós filhos da mãe

Não me obriguem a vir para a ruaGritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa
E zarpar

Bem me diziam, bem me avisavam
Como era a lei
Na minha terra, quem trepa
No coqueiro é o rei

A bucha é dura, mais dura é a razão
Que a sustem só nesta rusga
Não há lugar prós filhos da mãe

Não me obriguem a vir para a rua
Gritar
Que é já tempo d' embalar a trouxa
E zarpar

Zeca Afonso

sábado, 17 de janeiro de 2009

fiquei em casa

fiquei em casa. comigo. simples, no meu espaço. com livros. lidos e outros tantos por ler. entre letras. mais confiáveis, estas palavras. sou eu que as escolho. para me questionarem, concordar ou enfurecerem. não os livros, as palavras, mais uma vez. outra vez, mais uma vez, folheio-os como que à procura de algo. nem sempre encontro. outras, encontro-me no que sublinhei a lápis de carvão, no que considerei e como avaliei. em outros tempos. em que o mundo não me era apresentado como hoje. fiquei em casa. comigo, simples, no meu espaço...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Katie Melua - Nine Million Bicycles

de vez em quando ou de quando em vez encontro-me com a Katie. e ela deve gostar.

encontramo-nos todos os sábados

encontramo-nos todos os sábados naquele café. naquele. onde estás tu. a tal. naquele café está a tal mulher. aquela que eu amo. naquele café está a tal mulher, aquela que eu amo. e que me olha intensamente. naquele café está a tal mulher, aquela que eu amo e que me olha intensamente. e diz olá, gosto do seu casaco. naquele café está a tal mulher que eu amo e que me olha intensamente e que me diz olá, gosto do seu casaco. e coloca na minha mão um bilhete com um número de telefone. naquele café está a tal mulher que eu amo e que me olha intensamente e que me diz olá, gosto do seu casaco e coloca na minha mão um bilhete com um número de telefone. ligo-lhe. diz que quer marcar um encontro. naquele café está a tal mulher que eu amo e que me olha intensamente e diz olá, gosto do seu casaco e coloca na minha mão um bilhete com um número de telefone, ligo-lhe e diz que quer marcar um encontro. marcamos um encontro na praça Luís de Camões. encontramo-nos e falamos. naquele café está a tal mulher que eu amo, que me olha intensamente e diz olá, gosto do seu casaco, coloca na minha mão um bilhete com um número de telefone, ligo-lhe e diz que quer marcar um encontro e encontramo-nos na praça Luís de Camões e falamos. enamoradas subimos as escadas de uma pensão. onde fodemos. depois despedimo-nos e marcamos um novo encontro.

exercício

* complete com a palavra que lhe pareça mais indicada.

cautela com os amores. pensem duas vezes em casar com um (a) _________, pensem muito seriamente, é meter-se num monte de__________ que nem __________sabe onde é que acabam.

cardeal-patriarca josé policarpo (adaptado)


resoluções possíveis:

1. cautela com os amores. pensem duas vezes em casar com uma lésbica, pensem muito seriamente, é meterem-se num monte de pecados que nem Deus sabe onde é que acabam.

2. cautela com os amores, pensem duas vezes em casar com um português, pensem muito seriamente, é meterem-se num monte de maus tratos que nem a sua mãe sabe onde é que acabam.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

palavras decentes

Amor é fogo que arde sem se ver

Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luiz Vaz de Camões

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

palavras ordiná ri as

já fodeste muito, eu sei. e deixaste que te fodessem. mas que merda! com o que é que ficaste na merda desses momentos? momentos, simplesmente. para te gabares às amigas e queridas do teu círculo hipócrita? que ocorreram umas trocas de fluídos e ela disse muitas vezes ai? foda-se! mas já alguma vez amaste? sabes o que é gostar de alguém muito, muito mesmo, e querer e desejar essa pessoa próximo? só. a presença basta, nem é necessário o toque. pode estar calada, pode falar o que quiser mas é ela, a tal, a pessoa que amas. quem embrulhou o teu coração com algodão e o mantém quente, muito quente. sabes o que é isso? já alguma vez sentiste isso? não... então cala-te. e vai para o caralho.

com versa

outro dia conversava com uma amiga considerações, visões e outros etecetras sobre, essencialmente, como amamos. a conversa tornou-se quente quando deslindávamos do novelo situações engraçadas, entre mágoas e tristezas; diferentes pois já toda agente sabe que amamos de formas díspares, sendo este, por vezes um dos principais motivos de discórdia.
saí satisfeita e acho que ela também. dialogar com as pessoas sobre sentimentos é algo que hoje escasseia. parece ser bem mais interessante discursar sobre o lucro, o sucesso, o emprego, o dinheiro… ou o seu contrário; compreende-se dada a conjuntura actual, mas por isso mesmo, torna-se assim tão ou mais urgente falar de amor, partilha e solidariedade – qualidades que ainda quero acreditar existem no ser humano.
amar, partilhar e ser solidário actualmente não é tarefa fácil tal como, actualmente é sobreviver. mas não nos podemos esquecer que é devido a estes sentimentos que muitas vezes corremos, pensamos, agimos, aquecemos… preservar o amor numa relação, por exemplo, requer tempo. é um trabalho árduo, quase minucioso, a exigir muita ginástica em vários domínios. e isso não é fácil. é muito moroso e há quem não tenha paciência para tanto, infelizmente. são os instantes que ditam.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Conta-me

Conta-me
Do teu vestido verde
Seda pura
Corte liso
Conta-me
Do que é preciso
Para que vistas luar
E sombra
Pele e luz.

Edgardo Xavier
in Amor Despenteado

Waltz with Bashir | Ari Folman | Official Trailer #1 [HD Quality]

um acaso. do caso da memória. de guerra. em guerra... que este filme de animação revela. também a memória como um "mundo rico e fascinante".

memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

lembranças

não me lembro

não me lembro de sentir tanto frio em lisboa.
não me lembro de pensar tantas vezes no frio que estava.
não me lembro de ver registado 1ºC em lisboa.
não me lembro de dizer que sou friorenta tantas vezes num dia.
não me lembro de ouvir tantas vezes num dia ai, está tanto frio...
não me lembro de falar tantas vezes, ai isto não se aguenta.
não me lembro de um dia assim em lisboa.
não me lembro.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Estado deste blog

o o
X
[tradução: encerrado por instantes]

simples

dou por mim a pensar. em nada. e pergunto, por que não me apetece pensar. sem pensar. penso. deixo-me ficar, a observar o que me rodeia, os objectos. simples. neste meu estado. offline. do tipo autista. não quero saber nada. não quero ouvir nada. só respirar. ar. oxigenar o meu corpo. imóvel. em cima do móvel da sala. simples.

e os projectos?

então esqueci-me no post em baixo dos projectos... e os projectos? os que já fiz, os que pensei fazer e nunca farei e os que penso fazer...blá blá blá :o era só isso.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

o que dizer sobre a minha pessoa? que sou isto ou aquilo e mais não sei quê e fui acolá e além e ali fiz um pouco de tudo e de nada e quem me conhece sabe bem quem sou e não serei mais do que eu própria sei. mais que de mais te direi? e mais o que te poderei dizer? sou o que e como sou e isso, basta-me. só. serei nada?

domingo, 4 de janeiro de 2009

The Cure - A Forest - (Perfect Version)

comento: sem comentários :)

palavras difíceis

basta-me permanecer no seu regaço

Basta-me morrer no meu país
aí ser enterrada
dissolver-me e aí reduzir-me a nada
ressuscitar erva em sua terra
ressuscitar flor
que uma criança crescida em meu país arrancará
basta-me estar no regaço de minha pátria.
terra........
...................erva.....................
......................................flor

Fadwa Tuqan

não me canso de falar

Não me canso de falar sobre a diferença ténue entre as
mulheres e as árvores,
sobre a magia da terra, sobre um país cujo carimbo não
encontrei em nenhum passaporte.
Pergunto: Senhoras e senhores de bom coração, a terra
dos homens é, como vós afirmais, de todos os homens?
Onde está então o meu casebre? Onde estou eu? A
assembleia aplaudiu-me
durante três minutos, três minutos de liberdade e de
reconhecimento... A assembleia acaba de aprovar
o nosso direito ao regresso, como o de todas as galinhas e
todos os cavalos, a um sonho de pedra.
Aperto-lhes a mão, um a um, depois faço uma saudação,
inclinando-me... e continuo a viagem
para outro país, onde falarei sobre a diferença entre
miragens e chuva.E perguntarei: Senhoras e senhores de bom coração, a
terra dos homens é
de todos os homens?

Mahmud Darwich

sábado, 3 de janeiro de 2009

falam os actos


aqui, quando eram urgentes as palavras, não existiram. aqui, quando as palavras chegaram os actos tinham-nas corroído. enclaves. aqui, continua a não existir direito à palavra e aos actos com os lados. aqui não há palavras que valham. agora falam só os actos; de um lado. para mais um auto de história. infeliz

palavras indiferentes

- ontem à noite pensei em ti, com carinho.

[isto para ti não tem qualquer valor]

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

as palavras não têm valor. nós somos uma espécie de banqueiros das palavras. só ganham o valor que nós lhes quisermos atribuir. fora isso, são letras todas juntas.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

uma pérola

[fui aqui e descobri mais aqui. uma pérola.]


Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto

Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira
in A Casa e o Cheiro dos Livros

palavras com sentimento

as palavras são só isso. palavras. nada mais! mas tantas e tantas vezes, por que andamos à sua procura enquanto passam os dias? por que as palavras são importantes, à nossa sobrevivência. claro que dirão, alguns, que não interessam se junto a elas não existirem acções. talvez até concorde. talvez até discorde pois, são muitos os momentos em que nos perdemos quando são soletradas por aquela pessoa; por quem nutrimos um sentimento, qualquer que ele seja. assim, as palavras, na maior parte das vezes, só ganham significado, positivo ou negativo, se a elas adicionarmos uma pitada de sentimento(s); e isto acontece em vários planos da nossa vida; para melhor ou pior, a nossa visão começa a ser construída, definida, por vezes de forma inalterável sobre uma dada pessoa. a partir daí, as palavras podem ter um sentido, um caminho; direccionar-nos. transformar-nos. accionar-nos. quase sempre no modo como vemos algo geral ou particular, algumas vezes no modo como agimos. raramente no mais íntimo de nós.