quinta-feira, 30 de junho de 2011

estado da minha vida







(deve ser por isso que tenho andado tonta; talvez não, deve ser do tempo, tem estado muito calor. e não, ainda não estou de férias.)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

1970 (retrato)



A minha geração, já se calou, já se perdeu, já amuou,
já se cansou, desapareceu,
ou então casou, ou então mudou
ou então morreu: já se acabou.

A minha geração de hedonistas e de ateus,
de anti-clubistas,
de anarquistas, deprimidos e de artistas
e de autistas
estatelou-se docemente contra o céu.

A minha geração ironizou o coração,
alimentou a confusão
brincou às mil revoluções
amando gestos e protestos e canções,
pelo seu estilo controverso.

A minha geração, só se comove com excessos,
com hecatombes,com acessos de bruta cólera,
de morte, de miséria, de mentiras,
de reflexos da sua funda castração.

A minha geração é a herdeira do silêncio,
dos grandes paizinhos do céu,
da indecência, do abuso.
E um belo dia esqueceu tudo e fez-se à vida,
na cegueira do comércio.

A minha geração é toda a minha solidão,
é flor da ausência, sonho vão,
aparição, presságio, fogo de artifício,
toda vício, toda boca e pouca coisa na mão.

Vai minha geração,
ergue a cabeça e solta os teus filhos
no esplendor do lixo e do descuido.
Deixa-te ir enquanto o sabor acre da desistência
vai corroendo a doçura da sua infância.

Vai minha geração, reage,
diz que não é nada assim.
Que é um lamentável engano, erro tipográfico,
estatística imprecisa, puro preconceito.
Que o teu único defeito é ter demasiadas qualidades
e tropeçar nelas.

Vai minha geração, explica bem alto a toda a gente.
Que és por demais inteligente, para sujar as mãos neste velho processo,
triste traste de Deus.
De fingir que o nosso destino é ser um bocadinho melhor do que antes.

Vai minha geração,
nasceste cansada, mimada, doente,
por tudo e por nada, com medo de ser inventada.
O que é que te falta, agora que não te falta nada?
Poderá uma pobre canção contribuir para a tua regeneração
ou só te resta morrer desintegrada?

Mas minha geração...
Valeu a trapaça, até teve graça,
tanta conversa, tanta utopia tonta,
tanto copo, e a comida estava óptima!

O que vamos fazer?

[julgo] JP Simões

segunda-feira, 6 de junho de 2011

nada demais



imagem daqui


num bairro antigo de Lisboa. entrei mais uma vez na secção de voto correspondente ao meu número de eleitor. é sempre rápido ali votar. mais uma vez, cruzei-me com uma fila enorme de uma outra secção ao lado da minha. composta por uma maioria de mulheres, muitas pilares de outras vidas, quase todas aparentemente acima dos 60 anos, esperam longos minutos para exercerem um direito que sabem negado durante anos a mais. jovens, há poucos. muitos nas ruas. olhei o boletim de voto, li o nome de alguns partidos, respirei fundo e com a caneta disponível fiz um X demoradamente reflectido num quadrado.
enquanto continuar a acreditar no sistema democrático (também não vejo alternativa) o direito/dever será cumprido. e assim foi.