Livrai-me, Senhor/De tudo o que for/Vazio de amor/ Que nunca me espere/Quem bem não me quer/(homem ou mulher)/ Livrai-me também/De quem me detém/E graça não tem/ E mais de quem não/Possui nem um grão/ De imaginação. "Libera-me". Carlos Queiroz
terça-feira, 31 de março de 2009
Poética
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo
namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação
Manuel Bandeira
segunda-feira, 30 de março de 2009
um vídeo que fale por ti
apetece-me dedicar este vídeo a alguém que eu cá sei. pronto, já está feita a dedicação. agora, quem quiser dedicar-se a ouvi-lo com atenção, faça favor. o poema merece - é lindo!
sábado, 28 de março de 2009
o sopro
bom fim de semana
chegou ao fim uma semana que parecia interminável. não fui infelizmente para a europa central mas trabalhei que me fartei. fartei-me mesmo. por agora, desejo a tod@s que por aqui passam um excelente fim de semana. garanto-vos que vou fazer por isso.
sexta-feira, 27 de março de 2009
dia mundial do teatro
quarta-feira, 25 de março de 2009
um vídeo que fale por ti
numa semana cheia de trabalho, apetecia-me deixar o "novelo" com uma série de nós a apresentar impeterivelmente até sexta-feira e partir de comboio em direcção à europa central. não sei por quê... mas tenho a certeza de que melhoraria bastante o meu estado de espírito. às vezes já não há pachorra! o jazz, que adoro, de vez em quando ou de quando em vez lá me vai salvando...
segunda-feira, 23 de março de 2009
papa do papa
quinta-feira, 19 de março de 2009
um vídeo que fale por ti
tenho de (devo) dedicar-me ao lar. mas não me apetece. há momentos em que só quero sair porta fora e deixar-me exposta a ilimitadas possibilidades, com boa companhia. a época do lar já deu o que tinha a dar. e há sempre um mundo por descobrir, mesmo que só deseje conhecer parte dele. há sempre algo para fazer.
quarta-feira, 18 de março de 2009
desabafo
domingo, 15 de março de 2009
uma imagem que fale por ti
quinta-feira, 12 de março de 2009
meia dúzia de olhares
o teu cabelo
domingo, 8 de março de 2009
um vídeo que fale por ti
hoje aproximei-me das ondulações marítimas. no dia da gaja não havia presente melhor. um viva a todas e gajas deste planeta! as que cá estão e as, muitas, que lutaram para eu ter os direitos que possuo. apetece-me fazer um brinde com o copo cheio de vinho tinto frutado. tchim tchim
sábado, 7 de março de 2009
Eu sei, mas não devia
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e
a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.
E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar. A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que
pagar nas filas que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata
dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.
As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.
Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada,
a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor
aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente sentada na primeira fila e torce um pouco o
pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do
corpo.
Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que
gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Marina Colasanti
quarta-feira, 4 de março de 2009
terça-feira, 3 de março de 2009
sem título
Ana Teresa Silva in Dizer-te
palavras com conto (inacabado)
esticas-te, suspendes o teu corpo sobre a minha mão, com um copo e respondes-me ao ouvido que nada, nada de interessante se consegue fazer naquelas festas sociais de plumas e pichebeque lavado em ouro. seguro-te a mão. puxo-te de encontro aos jardins daquela mansão impetuosa para nos encontrarmos no tempo perdido entre lágrimas e golpes de pernas, ou o inverso...
domingo, 1 de março de 2009
um vídeo que fale por ti
os meus passos lentos, a que querem obrigar maior rapidez, fluidez, agilidade, não passam de passos sem compasso. no silêncio. tropeço. na rotina dos dias. prossigo. até um começo... incompleto.
apetece-me ir ver o mar.
palavras cénicas (do absurdo)
SR. MARTIN – Desculpe, minha senhora, mas parece-me, se não estou enganado, que a conheço de algum lugar.
SRA. MARTIN – Eu também, meu senhor, parece que o conheço de algum lugar.
SR. MARTIN – Por acaso, minha senhora, eu não a teria visto em Manchester?
SRA. MARTIN – É bem possível. Eu sou da cidade de Manchester! Mas não me lembro muito bem, meu senhor, eu não poderia dizer se o vi ou não!
SR. MARTIN – Meu Deus, que curioso! Eu também sou da cidade de Manchester, minha senhora!
SRA. MARTIN – Que curioso!
SR. MARTIN – Que curioso! … Só que eu, minha senhora, saí de Manchester há mais ou menos cinco semanas!
SRA. MARTIN – Que curioso! Que estranha coincidência! Eu também, meu senhor, saí da cidade de Manchester há mais ou menos cinco semanas.
SR. MARTIN – Peguei o comboio das 8 e meia da manhã, que chega em Londres às 15 para as 5, minha senhora.
SRA. MARTIN – Que curioso! Que estranho! E que coincidência! Eu também peguei o mesmo comboio, meu senhor.
SR. MARTIN – Meu Deus, que curioso! Então, minha senhora, talvez eu a tenha visto no comboio?
SRA. MARTIN – É bem possível, pode ser, é plausível, e, afinal, por que não!… Mas eu não me lembro disso, meu senhor!
SR. MARTIN – Eu estava a viajar em segunda classe, minha senhora. Não existe segunda classe na Inglaterra, mas assim mesmo eu viajo de segunda classe.
SRA. MARTIN – Que estranho, que curioso, e que coincidência! Também eu, meu senhor, estava a viajar em segunda classe!
SR. MARTIN – Que curioso! Talvez nos tenhamos encontrado na segunda classe, minha cara senhora!
SRA. MARTIN – É bem possível, pode ser. Mas eu não me lembro muito bem, meu caro senhor!
SR. MARTIN – Meu lugar era no vagão número 8, 6o. compartimento, minha senhora!
SRA. MARTIN – Que curioso! Meu lugar também era no vagão número 8, 6o. compartimento, meu caro senhor!
SR. MARTIN – Que curioso e que estranha coincidência! Talvez nos tenhamos encontrado no 6o. compartimento, minha cara senhora?
SRA. MARTIN – É bem possível, afinal! Mas eu não me lembro, meu caro senhor!
SR. MARTIN – Para falar a verdade, minha cara senhora, eu também não me lembro, mas é possível que nos tenhamos visto lá, e, pensando bem, a coisa parece-me bem possível!
SRA. MARTIN – Oh! Realmente, é claro, realmente, meu senhor!
SR. MARTIN – Que curioso!… Meu lugar era o número 3, perto da janela, minha cara senhora.
SRA. MARTIN – Oh, meu Deus, que curioso e que estranho, meu lugar era o numero 6, perto da janela, em frente ao senhor, meu caro senhor.
SR. MARTIN – Oh, meu Deus, que curioso e que coincidência!… Nós estávamos então frente a frente, minha cara senhora! É aí que devemos ter-nos visto!
SRA. MARTIN – Que curioso! É possível mas eu não me lembro, meu senhor.
SR. MARTIN – Para falar a verdade, minha cara senhora, eu também não me lembro. Contudo, é bem possível que nos tenhamos visto naquela ocasião.
SRA. MARTIN – É verdade, mas eu não estou muito certa disso, meu senhor.
SR. MARTIN – Mas não foi a senhora, minha cara senhora, a senhora pediu-me para pôr sua maleta no bagageiro e que em seguida agradeceu-me e deu-me permissão para fumar?
SRA. MARTIN – É sim, devia ser eu, meu senhor! Que curioso, que curioso, e que coincidência!
SR. MARTIN – Que curioso, que estranho, que coincidência! Muito bem, e então, então talvez nos tenhamos conhecido naquele momento, minha senhora?
SRA. MARTIN – Que curioso e que coincidência! É bem possível, meu caro senhor! Contudo, acho que não me lembro.
SR. MARTIN – Eu também não, minha senhora.
Eugene Ionesco in A Cantora Careca.