sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O que fica depois dos violinos

Lo que queda después de los violines

Quando te esqueceres do meu nome,
e o meu corpo for apenas uma sombra
esbatida nas húmidas paredes daquele quarto.
Quando já não te chegar o eco da minha voz,
ou o entoar das minhas palavras,
peço-te então que recordes: houve uma tarde,
umas horas, fomos felizes juntos e foi estrondoso viver.
Era domingo em Hampsead, com a frágil primavera de abril
a espontar nos rebentos dos castanheiros.
Em direcção à igreja apressavam-se monjas irlandesas,
rapazes, endomingados e entorpecidos, pela mão.
Em cima, por detrás da sebe, na verde penumbra do parque,
dois homens beijavam-se, lentamente.
Chegaste tu, sem que me desse conta apareceste e começámos
---------------a falar,
tropeçando de riso entre as palavras, gaguejadas
no estranho idioma que nem a ti nem a mim pertencia.
Depois fizeste-te pequena nos meus braços
e a relva acolheu a tua escura cabeleira.
E sem demora a cinzenta escadaria, comprida e estreita,
a alfombra de cinza e gordura,
os teus pequenos e desolados seios na minha boca.
Sim, às vezes é simples e aprazível viver,
quero que te lembres, que não te esqueças
do passar daquelas horas, do seu esperançado fulgor
Também eu, longe de ti, quando perdida na memória
estiver a sede do teu sorriso, lembrarei, como agora,
enquanto escrevo estas palavras para todos aqueles
que num momento, sem promessas nem dádivas, puramente
------------se entregam;
e no desconhecimento de raças ou razões se fundem
num corpo único, mais ditoso,
para logo, aquietado já o instinto,
se separarem, cumprindo o seu destino,
sabendo que, talvez só por isso,
não foi a sua existência vã.

Juan Luis Panero
in Antes que Chegue a Noite. Fenda. 2001.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

direitos civis em portugal

[embora atrasada - 8/1/2010 - vou sempre a tempo de recordar História].

1867 - Introdução do casamento civil. Abolição da pena de morte para todos os crimes civis.
1869- Abolição da escravatura.
1910- Lei do divórcio. Com a Concordata de 1940, este virá a ser proibido a quem se case pela Igreja.
1969- Introduzido na lei o princípio «salário igual para trabalho igual».
1974- O direito de voto é concedido às mulheres sem restrições. Instituído o salário mínimo nacional.
1975- O divórcio é concedido também aos cônjuges casados pela Igreja.
1976- A contituição consagra as liberdades democráticas. Aprovada a licença de maternidade de 90 dias.
1978- Do novo Código Civil desaparece a figura do «chefe de família».
1979- Criação do Serviço Nacional de Saúde. Lei da liberdade do ensino.
1982- A homossexualidade é despenalizada.
1983- Despenalizada a prostituição.
1990- Portugal retifica a Covenção sobre os Direitos da Criança.
2001- Lei das uniões de facto é estendida aos casais homossexuais.
2007- Despenalização do aborto até às 10 semanas a pedido da mulher.

in Revista Visão. p-37. nº 879. 2010.

2010- A consagração do direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

momento espacial

num acaso encontro uma pessoa conhecida. diz-me que não tem andado bem psicologicamente. por acaso, entre palavras que se cruzam numa conversa, refiro a área de lisboa onde trabalho. sem acaso nenhum, ligam-me do meu local de trabalho a informar-me que uma pessoa, a tal, telefonou à minha procura. e o insólito, assim, aconteceu. espero que não volte a suceder.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

saltimbancos à parte, um vídeo que fale por ti

se gostasses assim tanto de mim, vinhas viver comigo.

Revolução orbital: vai-se a rosa transformando
na coisa múltipla, amante e amada, na acção
que assim a faz e nos acidentes mínimos – paisagens,
estações dos dias e das noites, dos anos da história.
Ondula no cérebro a fronteira que as margens da luz
desenham. E a rosa é uma hélice que vibra
no ar que a respirar obriga(s): torção dos pulmões,
do tronco e do sexo, dos nomes e dos vocativos
que se respondem: como um coração que deflagra
a rosa faz do ar que te falta a terra de onde nasces
e o chão sobre que danças.

Manuel Gusmão
in Dois Sóis, A Rosa – A arquitetura do mundo. Editorial Caminho. (1990/2001)

facto

o início do ano está a começar mal, com insónias e conversa com saltimbanco* perdido num vazio de afectos. disco formatado para o mesmo propósito, do calhau, sem propósito que valha. descreve sentimentos como quem fala da decoração da casa de banho e move-se neles como um baloiço entre (um porto tolo) aqui e acolá e, porque não, mais além. tanta palavra largada para o espaço. valeram-me os cigarros. esses raramente me enganam. tal como os saltimbancos.
vou olhar para as estrelas e pensar que novos dias virão; entretanto pode ser que o sono se encoste a mim e deixe-me finalmente sonhar.

*saltimbanco- s.m. 1. Acrobata ou ginasta que se exibe pelas feiras, festas, etc. 2. Charlatão de feira. 3. Fig. Indivíduo de opiniões versáteis.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

lhasa de sela

ontem o mundo ficou um pouco deserto sem Lhasa de Sela.
uma das minhas músicas preferidas que fique aqui durante muito tempo.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

uma imagem que fale por ti

Jeanne Moreau
imagem daqui
Jeanne Moreau é uma das grandes actrizes francesas. Orsen Wells disse várias vezes que a considerava a melhor actriz do mundo. Chico Buarque dedicou-lhe uma canção. e ela canta e encanta aqui.
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com a voz dela em fundo apetece-me fazer algo que faço de quando em vez ou de vez em quando, segurar um livro e abrir ao acaso, e no acaso deixar as palavras virem ao meu encontro. desta vez escolhi O Ofício de Viver, de Cesare Pavese, editado pela Relógio D'Água. abri o livro e encontrei-me na página 58:
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"Poder-se-ia, talvez, ver o real, se nos instalássemos numa prisão subterrânea, onde restasse apenas o mergulhar pensativamente e dilatarmo-nos na água. A convivência seria apenas o resíduo irredutível da sociedade, comparável à casaca e à habituação dos sentidos - ver um muro, ouvir uma voz, respirar o céu. O substracto da vida de alguém tornado presente e penetrado com firmeza, dado que quem quer que seja pode chegar àquele local e está lá sempre alguém, mesmo se é um outro; e a vida consiste apenas em enfeitar, de maneira vária, o eterno real. O esforço consistiria em atingir imediatamente a adaptação, sem desperdício de restos.
Descobre-se assim que, na vida, quase tudo é passatempo; daí o propósito, formulado pelo prisioneiro, de viver, se voltar à liberdade, como um eremita; chupando o suco do passatempo, extraindo-lhe todo o miolo. É o propósito formulado por todos os prisioneiros. E a vida passada surgiria como descuidada e febril, por causa das pretensões desordenadas que o viciaram. Aqui, o pensamento, reduzido à superficialidade, revela quanto é extravagante o vivermos por nossos meios, lutando e fazendo projectos. Nunca esquecer que, por baixo de tudo, o homem está nu. Há um caso em que nos despimos completamente e nos mostramos e é para fazer a coisa menos sensata e mais vergonhosa da vida.
Os pontos são: o real é uma prisão onde, precisamente, vegetamos e sempre havemos de vegetar; e tudo o resto, o pensamento, a acção, é passatempo, tanto interior como exteriormente. Importa, portanto, possuir bem o real, visto ser efémero tudo o resto. Também porque, se não existisse a convivência, como foi o caso de outrora, não desfrutaríamos, sequer, do passatempo pensamento-palavra - seríamos como árvores. Repito, eis o drama: dizer mal do pensamento-palavra, e, por conseguinte, da vida-passatempo, chorando em silêncio tudo o resto e exaltando, por raiva, o real, sempre possível em qualquer de nós como segregação integral."

sábado, 2 de janeiro de 2010

novo ano

este é o meu primeiro post de 2010 logo, deverei pedir um desejo. algo que quero muito para este novo ano que se inicia. penso e rapidamente o desejo aparece, já repetido em outras ocasiões. mas os desejos são assim, pouco mutáveis, estão-nos como que agarrados à cabeça entre pilares e, raramente, trocamos por outros que não pertencem à nossa estrutura; ao nosso contexto vivencial. pilares esses que nos sustentam, que servem de alimento ao nosso crescimento. são eles o campo afectivo, o campo da saúde e o campo profissional e consequente possibilidade de sustentação financeira que permite-nos com lucidez enriquecer do ponto de vista pessoal, com as inúmeros horizontes que abre ao nosso olhar sempre resplandescente por novas aquisições materializáveis. nunca encontrei ninguém que não o desejasse, apesar dos apelos ao não consumismo por outros que, no fundo, também o são, consumidores, talvez a um nível inferior ou mais selectivo - quem nunca desejou mais dinheiro que aqui se afirme, pois seria o meu primeiro encontro.
assim, os meus desejos para este novo ano que se inicia, e marca o fim de uma década, foram e são vulgares, com a única réstia de originalidade de possuir um animal doméstico que circunda aqui por casa e, claro que sim, desejar-lhe um bom ano e, ao contrário do que é horrivelmente usual, não me abandone pois, gosto muito da sua presença. fiel.
ano novo, vida nova? ainda não notei nada. deve ser da colheita pouco anterior ao abril de 74.