segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

uma imagem que fale por ti

Jeanne Moreau
imagem daqui
Jeanne Moreau é uma das grandes actrizes francesas. Orsen Wells disse várias vezes que a considerava a melhor actriz do mundo. Chico Buarque dedicou-lhe uma canção. e ela canta e encanta aqui.
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com a voz dela em fundo apetece-me fazer algo que faço de quando em vez ou de vez em quando, segurar um livro e abrir ao acaso, e no acaso deixar as palavras virem ao meu encontro. desta vez escolhi O Ofício de Viver, de Cesare Pavese, editado pela Relógio D'Água. abri o livro e encontrei-me na página 58:
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"Poder-se-ia, talvez, ver o real, se nos instalássemos numa prisão subterrânea, onde restasse apenas o mergulhar pensativamente e dilatarmo-nos na água. A convivência seria apenas o resíduo irredutível da sociedade, comparável à casaca e à habituação dos sentidos - ver um muro, ouvir uma voz, respirar o céu. O substracto da vida de alguém tornado presente e penetrado com firmeza, dado que quem quer que seja pode chegar àquele local e está lá sempre alguém, mesmo se é um outro; e a vida consiste apenas em enfeitar, de maneira vária, o eterno real. O esforço consistiria em atingir imediatamente a adaptação, sem desperdício de restos.
Descobre-se assim que, na vida, quase tudo é passatempo; daí o propósito, formulado pelo prisioneiro, de viver, se voltar à liberdade, como um eremita; chupando o suco do passatempo, extraindo-lhe todo o miolo. É o propósito formulado por todos os prisioneiros. E a vida passada surgiria como descuidada e febril, por causa das pretensões desordenadas que o viciaram. Aqui, o pensamento, reduzido à superficialidade, revela quanto é extravagante o vivermos por nossos meios, lutando e fazendo projectos. Nunca esquecer que, por baixo de tudo, o homem está nu. Há um caso em que nos despimos completamente e nos mostramos e é para fazer a coisa menos sensata e mais vergonhosa da vida.
Os pontos são: o real é uma prisão onde, precisamente, vegetamos e sempre havemos de vegetar; e tudo o resto, o pensamento, a acção, é passatempo, tanto interior como exteriormente. Importa, portanto, possuir bem o real, visto ser efémero tudo o resto. Também porque, se não existisse a convivência, como foi o caso de outrora, não desfrutaríamos, sequer, do passatempo pensamento-palavra - seríamos como árvores. Repito, eis o drama: dizer mal do pensamento-palavra, e, por conseguinte, da vida-passatempo, chorando em silêncio tudo o resto e exaltando, por raiva, o real, sempre possível em qualquer de nós como segregação integral."

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