quinta-feira, 7 de abril de 2011

velhinhas

adoro algumas velhinhas. especialmente aquelas que metem conversa e revelam-nos coisas da vida, por vezes ou quase sempre com um sorriso. falam com uma simplicidade que por vezes até mete inveja, tão mergulhados que estamos na complexidade, no emaranhado de fios sem fim. hoje estou em cacos, é um facto; estilhaços que cortam as veias e impedem-me de ver a vida a cores. não sei bem porquê, dizem-me é do tempo, maldito, culpado também pelas dores de cabeça e de coluna. todavia, valeu-me a ida à papelaria. saí de lá com um saco de compras cheio e vários sorrisos de boa disposição. valha-me isso, por momentos.

junto à caixa registadora estava uma senhora idosa já a trocar palavras. no exacto momento que encontra o meu olhar lança-me a pergunta, num tiro furtivo:

- não sou bonita?

- hã? claro que é bonita! - respondo-lhe.

- sabe que idade é que tenho? 88!

- ah! está óptima! ...

a conversa continua. fala-me de uma operação; de uma vida sozinha em prol dos outros; de um casamento tardio muito feliz; de viagens; de um tipo que, como já está viúva, lhe propôs coiso e tal mas para o qual já não tem pachorra; dos cremes que coloca na pele, água e sabão; de como se sente feliz, e fui muito feliz, sabe? ; e, como num golpe de magia, atira-me para a vista várias fotografias, vou ser muito rápida, - de quando era nova ( os óculos eram muito giros), do marido e... do tal tipo que lhe propôs coiso e tal mas que não está para aí virada, porque com a minha idade já não estou para andar a limpar, passar a ferro e lavar o cú. ora toma!

muito dificilmente alcançarei tanto tempo. mas gostei da ideia. quando for velha quero ser assim: meter-me nos estabelecimentos comerciais, apetrechada com anexos vários, como jornais, fotos, vídeos,citações horrorosas de paulo coelho só para chatear ... e questionar as pessoas sobre a minha beleza. acho que não me irão dizer que não...

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