domingo, 1 de março de 2009

palavras cénicas (do absurdo)

(O Sr. e a Sra. Martin sentam-se frente a frente, sem se falarem. Sorriem um para o outro, timidamente. O diálogo que se segue deve ser dito com voz arrastada, monótona, meio cantante, sem nuances)
SR. MARTIN – Desculpe, minha senhora, mas parece-me, se não estou enganado, que a conheço de algum lugar.
SRA. MARTIN – Eu também, meu senhor, parece que o conheço de algum lugar.
SR. MARTIN – Por acaso, minha senhora, eu não a teria visto em Manchester?
SRA. MARTIN – É bem possível. Eu sou da cidade de Manchester! Mas não me lembro muito bem, meu senhor, eu não poderia dizer se o vi ou não!
SR. MARTIN – Meu Deus, que curioso! Eu também sou da cidade de Manchester, minha senhora!
SRA. MARTIN – Que curioso!
SR. MARTIN – Que curioso! … Só que eu, minha senhora, saí de Manchester há mais ou menos cinco semanas!
SRA. MARTIN – Que curioso! Que estranha coincidência! Eu também, meu senhor, saí da cidade de Manchester há mais ou menos cinco semanas.
SR. MARTIN – Peguei o comboio das 8 e meia da manhã, que chega em Londres às 15 para as 5, minha senhora.
SRA. MARTIN – Que curioso! Que estranho! E que coincidência! Eu também peguei o mesmo comboio, meu senhor.
SR. MARTIN – Meu Deus, que curioso! Então, minha senhora, talvez eu a tenha visto no comboio?
SRA. MARTIN – É bem possível, pode ser, é plausível, e, afinal, por que não!… Mas eu não me lembro disso, meu senhor!
SR. MARTIN – Eu estava a viajar em segunda classe, minha senhora. Não existe segunda classe na Inglaterra, mas assim mesmo eu viajo de segunda classe.
SRA. MARTIN – Que estranho, que curioso, e que coincidência! Também eu, meu senhor, estava a viajar em segunda classe!
SR. MARTIN – Que curioso! Talvez nos tenhamos encontrado na segunda classe, minha cara senhora!
SRA. MARTIN – É bem possível, pode ser. Mas eu não me lembro muito bem, meu caro senhor!
SR. MARTIN – Meu lugar era no vagão número 8, 6o. compartimento, minha senhora!
SRA. MARTIN – Que curioso! Meu lugar também era no vagão número 8, 6o. compartimento, meu caro senhor!
SR. MARTIN – Que curioso e que estranha coincidência! Talvez nos tenhamos encontrado no 6o. compartimento, minha cara senhora?
SRA. MARTIN – É bem possível, afinal! Mas eu não me lembro, meu caro senhor!
SR. MARTIN – Para falar a verdade, minha cara senhora, eu também não me lembro, mas é possível que nos tenhamos visto lá, e, pensando bem, a coisa parece-me bem possível!
SRA. MARTIN – Oh! Realmente, é claro, realmente, meu senhor!
SR. MARTIN – Que curioso!… Meu lugar era o número 3, perto da janela, minha cara senhora.
SRA. MARTIN – Oh, meu Deus, que curioso e que estranho, meu lugar era o numero 6, perto da janela, em frente ao senhor, meu caro senhor.
SR. MARTIN – Oh, meu Deus, que curioso e que coincidência!… Nós estávamos então frente a frente, minha cara senhora! É aí que devemos ter-nos visto!
SRA. MARTIN – Que curioso! É possível mas eu não me lembro, meu senhor.
SR. MARTIN – Para falar a verdade, minha cara senhora, eu também não me lembro. Contudo, é bem possível que nos tenhamos visto naquela ocasião.
SRA. MARTIN – É verdade, mas eu não estou muito certa disso, meu senhor.
SR. MARTIN – Mas não foi a senhora, minha cara senhora, a senhora pediu-me para pôr sua maleta no bagageiro e que em seguida agradeceu-me e deu-me permissão para fumar?
SRA. MARTIN – É sim, devia ser eu, meu senhor! Que curioso, que curioso, e que coincidência!
SR. MARTIN – Que curioso, que estranho, que coincidência! Muito bem, e então, então talvez nos tenhamos conhecido naquele momento, minha senhora?
SRA. MARTIN – Que curioso e que coincidência! É bem possível, meu caro senhor! Contudo, acho que não me lembro.
SR. MARTIN – Eu também não, minha senhora.

Eugene Ionesco in A Cantora Careca.

2 comentários:

via disse...

que curioso, meu caro senhor, que sejamos marido e mulher e afinal nem demos por isso!Preciosidades!Ou simples distracção, as pessoas andam muito distraídas é o que é!

eu disse...

gostei muito de assistir a esta peça. lembrei-me. nem sei pq... tb eu ando distraída! até