Livrai-me, Senhor/De tudo o que for/Vazio de amor/ Que nunca me espere/Quem bem não me quer/(homem ou mulher)/ Livrai-me também/De quem me detém/E graça não tem/ E mais de quem não/Possui nem um grão/ De imaginação. "Libera-me". Carlos Queiroz
quarta-feira, 15 de junho de 2011
1970 (retrato)
A minha geração, já se calou, já se perdeu, já amuou,
já se cansou, desapareceu,
ou então casou, ou então mudou
ou então morreu: já se acabou.
A minha geração de hedonistas e de ateus,
de anti-clubistas,
de anarquistas, deprimidos e de artistas
e de autistas
estatelou-se docemente contra o céu.
A minha geração ironizou o coração,
alimentou a confusão
brincou às mil revoluções
amando gestos e protestos e canções,
pelo seu estilo controverso.
A minha geração, só se comove com excessos,
com hecatombes,com acessos de bruta cólera,
de morte, de miséria, de mentiras,
de reflexos da sua funda castração.
A minha geração é a herdeira do silêncio,
dos grandes paizinhos do céu,
da indecência, do abuso.
E um belo dia esqueceu tudo e fez-se à vida,
na cegueira do comércio.
A minha geração é toda a minha solidão,
é flor da ausência, sonho vão,
aparição, presságio, fogo de artifício,
toda vício, toda boca e pouca coisa na mão.
Vai minha geração,
ergue a cabeça e solta os teus filhos
no esplendor do lixo e do descuido.
Deixa-te ir enquanto o sabor acre da desistência
vai corroendo a doçura da sua infância.
Vai minha geração, reage,
diz que não é nada assim.
Que é um lamentável engano, erro tipográfico,
estatística imprecisa, puro preconceito.
Que o teu único defeito é ter demasiadas qualidades
e tropeçar nelas.
Vai minha geração, explica bem alto a toda a gente.
Que és por demais inteligente, para sujar as mãos neste velho processo,
triste traste de Deus.
De fingir que o nosso destino é ser um bocadinho melhor do que antes.
Vai minha geração,
nasceste cansada, mimada, doente,
por tudo e por nada, com medo de ser inventada.
O que é que te falta, agora que não te falta nada?
Poderá uma pobre canção contribuir para a tua regeneração
ou só te resta morrer desintegrada?
Mas minha geração...
Valeu a trapaça, até teve graça,
tanta conversa, tanta utopia tonta,
tanto copo, e a comida estava óptima!
O que vamos fazer?
[julgo] JP Simões
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1 comentário:
Fez-me lembrar um poema do Casuza. O fim das metanarrativas e os consensos universais eliminados sentimos um certo falhanço geracional ;)
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